Deep Trip

Depois de começar a mergulhar, todas as outras viagens são uma seca.

12/09/2005

Deep Trip 6 – México

O México, mais precisamente a península do Yucátan, para além de ser um dos maiores destinos de férias tropicais, é, hoje em dia, um dos maiores destinos de férias de mergulho. Se calhar reconhecem melhor de que parte estou a falar se evocar os baluartes turísticos da zona: Cancún e Tulum. Os packs de viagem, com voo e estadia incluídos, são a forma mais barata e cómoda de viajar para estes destinos. Tudo bem, se não nos incomodarmos com a falta de contacto com a realidade local, ao estarmos fechados num resort de 5 estrelas, que se assemelha mais à Disneylandia do que ao país onde estamos. Foi o que fiz, por ter pouco tempo, mas não resisti a ir jantar fora sempre que podia, mesmo com regime tudo incluído. É que não há paciência…
A minha maior motivação era tirar o curso de Rescue Diver e de primeiros socorros, para mergulhar mais à vontade e com maior confiança. Estes cursos já que ensinam os o que fazer quando nem tudo corre bem. Mas enganei-me ao pensar que seria um passeio na praia, ou melhor, na água! Foram 5 dias inteiros de estudo teórico e exercícios práticos, no mar e na piscina até à exaustão. Mas faz todo o sentido: não basta saber a teoria de como se deve ajudar um mergulhador inconsciente, é preciso demonstrá-lo na prática e ter força para isso. Passei assim boa parte das minhas férias a rebocar a nado instrutores com mais 30Kg que eu…. Cansativo…
Aqui vai uma dica: não vale a pena fazer este curso num bom sítio para mergulhar. Mais vale fazer por cá, ou passamos o tempo a ver tartarugas pelo canto do olho ao mesmo tempo que procuramos cintos de pesos no fundo do mar, a simular busca dentro de água! Um desperdício!
No pouco tempo que me restou, fiz os melhores mergulhos da zona, e ignorei completamente os programas fora de água. Exagerei, claro… mas valeu a pena!
Um dos motivos pelo qual o Yucatan é conhecido é como destino de mergulho é as Cenotes, cavernas infindáveis onde passam rios subterrâneos de água doce, consideradas das maiores do mundo. Algo bastante diferente dos mergulhos no mar e com algumas precauções extras. O instrutor leva 2 tanques de ar, o controlo de ar é feito muito mais assiduamente, temos de seguir os caminhos marcados por cordas, temos de levar lanterna pois boa parte do percurso é no escuro…. E a maior beleza é quando apanhamos uma entrada de luz que provocam efeitos turquesas magníficos na água! A fazer, mas não para claustrofóbicos. E outra dica: vistam o fato mal possam, a entrada das cenotes são buracos no meio da selva mexicana, guardados por nuvens de mosquitos impiedosos!
E, para mim, o melhor, Cozumel! Apanha-se um ferry em Playa del Cármen, uma simpática cidade, apesar dos franchises americanos, já com bastante movida, e vamos parar a uma ilha situada bem no recife do golfo do México, a 2ª maior barreira de recife do mundo Aliás, Cozumel vive do turista mergulhador e as hipóteses são mais que muitas em preço e qualidade para todos os gostos! E percebe-se bem porquê: o mar tem uma visibilidade acima dos 30m, corais de cores fabulosas, peixes tropicais das mais variadas dimensões e uns mergulhos drifts (a favor da corrente), em paredes de corais muito, muito bons! Caímos na água num sítio e vão-nos buscar a mais de 1 Km de distância. E nas calmas, basta cruzar os braços e deixar-nos levar. E há sempre uma tartaruga ou um tubarão para ver, para os sedentos de coleccionar animais maiores!
Fiquei com bastante vontade de voltar ao México, tanto para explorar melhor Cozumel como para ver alguma coisa cá fora. Mas confesso que a industrialização do turismo assustou-me um pouco. Mas nada que não passe com uma boa Corona e há sempre a possibilidade de enveredar pelo turismo alternativo (que incrivelmente fica mais caro devido aos preços dos voos regulares vs as pechinchas dos charters).
Para locais mais remotos e menos explorados o melhor é ir um pouco mais longe, com mais tempo e esquecer as viagens organizadas. Foi o que fiz na viagem seguinte: Vietname… mas isso fica para o próximo mergulho!

11/28/2005

Deep Trip 6 – Malta

Uma semana de férias apenas e uma vontade doentia de mergulhar, Malta pareceu-me uma boa opção. Fica ali já no mediterrâneo, há voos directos de Lisboa e os pacotes são de preços comportáveis, é uma ilha cheia de história com diversidade suficiente para ver alguma coisa fora de água, comer bem e descansar. Tudo fazia sentido. E faz, se as expectativas em relação ao mergulho não estiverem inflacionadas! Para quem mergulho é sinónimo de peixes e corais… Esqueçam Malta. O mediterrâneo tem, comparado com outros mares, pouca vida, sobretudo junto à costa. Mas não há que desesperar, há outros motivos para mergulhar: wreck diving (mergulho em destroços, normalmente, barcos) ou mergulho em grutas.
Depois de bem instalada e carro alugado, fui ter ao centro de mergulho que tinha escolhido pela internet. A internet é uma fonte de informação preciosa também para mergulho. Procurar um centro que seja PADI, cujo site tenha uma boa apresentação (já revela uma certo cuidado) e que geograficamente faça sentido. A PADI tem também um sistema de ranking dos centros, que é também um bom indicador.
Depois do centro escolhido, há ainda a questão de escolher os spots de mergulho. Há 2 forma de o fazer: ou não interferimos e fazemos o que nos sugerem, que pode ser o melhor se forem bem intencionados, ou o mais cómodo se forem preguiçosos; ou tentar induzi-los a fazer o que queremos, já com alguma informação, simpatia e a promessa velada de mergulhar bastantes vezes… se for bom. Obviamente a capacidade de influência é inversamente proporcional à dimensão do centro de mergulho: numa operação industrial não dá para influenciar grande coisa. Mas mesmo nesses, se fizermos um número simpático de mergulhos, pelo menos tentam não repetir os spots.
Deixando a parte da organização e voltando ao mergulho: na parte norte da ilha, há um cargueiro, afundado propositadamente num ponto acessível para se mergulhar desde a costa, que vale mesmo a pena. A visibilidade não é a melhor, há algumas correntes, os peixes são alguns, sem ser em abundância, mas o melhor mesmo é podermos mergulhar dentro do navio, flutuando pelos corredores e compartimentos. Vaguear num navio fantasma é bem divertido, e neste caso é facilitado pelas boas condições e grandes dimensões do navio.
As grutas são realmente um must da ilha. São sistemas cavernosos, muitas vezes interligados por túneis, onde se entra num buraco e sai-se noutro bem longe, depois de se ter andado em zig-zag por cavernas submersas. Mais uma forma diferente de mergulhar e bem divertida. 2 conselhos: não é bom para quem sofre de claustrofobia, correndo o risco de entrar em pânico nalgum dos buracos exíguos, sem a possibilidade de uma saída imediata; e se não se tem um bom domínio da flutuabilidade, treinar um pouco mais, ou corre-se o risco de estar o tempo inteiro a bater com a garrafa no tecto dos túneis ou a bater com as barbatanas no fundo e levantar areia para os desgraçados que vão atrás.
E por falar em desgraçados, num dos mergulhos saiu-me um buddy que marcou a minha ida a Malta. Os sinais de nervosismo e falta de à vontade com o material indiciavam que poderia ter pouca experiência. E era verdade: tinha acabado tirar o curso básico e, provavelmente, não tinha estado muito atento. O instrutor não se preocupou muito com ele, num grupo já de uma dimensão em que não dá para um tratamento personalizado. Depois da descida inicial, o buddy não conseguia estabilizar e, para evitar descer mais, pôs demasiado ar no colete. Ao sentir que estava a subir sem controlo, entrou em pânico e agarrou-se a mim, que por pouco não o segui vertiginosamente até à superfície. Este é o maior risco do mergulho: subir sem respeitar as regras pode provocar a famosa doença da descompressão, que nos piores casos pode originar embolia cerebral, morte. Sim, tão mau quanto parece. Lá consegui aguentar-me, tirar-lhe ar do colete e chamar a atenção do instrutor que veio em nosso auxílio. Reagi de forma automática, sem pensar, e acho que acabei por ter sorte. Que susto!
Com pouco tempo de férias, vale a pena ir a Malta, onde verifiquei que, mesmo sem muitos peixes e sem corais, se pode fazer bom mergulho. E o pequeno incidente fez-me tomar a decisão de aprofundar os meus conhecimentos deste desporto de forma a lidar melhor com inevitáveis situações de risco, o que fiz nas férias seguintes no México… mas isso fica para o próximo mergulho.

11/25/2005

Deep Trip 5 – Liveaboard Mar Andaman, Tailândia

Para quem não sabe, um liveaboard é uma viagem para os freaks do mergulho: vários dias num barco, normalmente não muito grande (10 a 20 pessoas), cujo itinerário são os melhores sítios para mergulhar, podendo a paisagem ser só mar e pouco mais. E o que fazer? Mergulhar, 3/4 vezes por dia, comer (regra geral come-se bastante bem!), dormir e ler. Aconselhável só aos fanáticos da coisa, especialmente nos liveaboard de maior duração. Este era de 3 noites, 4 dias e deu-me logo uma lição sobre a modalidade: que os outros passageiros podem ser as pessoas mais estranhas ou execráveis possíveis, e que, ou se leva companhia (de preferência com quem temos um bom relacionamento), ou temos que estar muito bem connosco próprios, sozinhos, a ler a um canto! 5 japoneses que não falavam uma palavra de inglês, 2 checas que não queriam falar uma palavra em inglês e um alemão, que falava inglês, mas mais valia estar calado! O melhor sítio para conviver com eles era debaixo de água!
A Tailândia é um destino turístico regular, quase banal, e no meio de idas a Bangkok e às ilhas Phi Phi, esta é uma boa sugestão: apanhar o barco em Phuket e rumar ao norte no mar Andaman, passando pelas impressionantemente paradisíacas e inabitadas ilhas Similan, até Richelieu Rock, já perto das águas birmanesas, e mergulhando pelo caminho, claro!
Estava na altura de fazer o meu curso advance, especialmente para tirar proveito do mergulho sem as limitações de profundidade, já que com o curso básico no máximo só se pode ir a 18m (para mergulho de recreio o máximo habitual são 30m). O Advance, pelo menos o da PADI (a entidade mais internacional que regula o mergulho recreativo), tem 5 especialidades: 2 obrigatórias, profundidade e orientação, e 3 à escolha, com uma diversidade imensa que depende dos gostos e disponibilidade. Uma boa dica: saiu mais económico, já que a viagem já tinha os mergulhos pagos e não paguei os mergulhos do curso. Mais vantagens ainda: não custa estudar, porque não há muito mais para fazer, e os mergulhos do advance são fáceis podendo disfrutar dum cenário fantástico!
E que cenário: as milhares de cores e variantes, tanto nos corais como nos peixes, todos os feitios, tamanhos, com quantidade, um excesso mesmo! Isto tudo numa água a 28º e com uma visibilidade excelente! E para quem gosta de ver algumas coisas grandes de notar um cardume de centenas de barracudas em formando um círculo gigante, alguns tubarões, um deles direito a mim enquanto fazia um exercício no mergulho de profundidade, e uma manta que se me escapou, mas houve quem a visse. Isto tudo e muito mais, já que fiz os meus primeiros mergulhos nocturnos, também, uma das especialidades do curso escolhidas. Mergulhar à noite é também para freaks: dá para ver algumas coisas que de dia não é possível, mas no geral vê-se menos e é mais pela adrenalina de imaginar um tubarão branco ao voltar lanterna noutra direcção (sim, porque só se vê alguma coisa no raio de luz da lanterna). Eu gosto, mas moderadamente.(Mas eu não sou uma freak;)
Tudo corria bem, o curso estava no papo, a qualidade dos mergulhos sempre a aumentar, até que apanhei o susto! A corrente estava forte e a indicação era mergulhar e descer por uma corda, bem rápido. Saltámos, mas falhámos a corda e, ao descer, cada vez nos afastávamos mais. O instrutor desapareceu! Simplesmente! Descemos o mais rápido possível até ao fundo, e agarrados às pedras e ao chão, conseguimos avançar para um local mais abrigado e, aos poucos, para a corda. Provavelmente o poder das minhas palavras não é suficiente para descrever a força da corrente. Sozinha, não o teria conseguido fazer, até porque estava bastante assustada e o ar estava a gastar-se a uma velocidade vertiginosa. A sorte foi o buddy (o mergulho é feito a 2, a pessoa que nos acompanha chama-se Buddy) ser mais experiente. Uma vez na corda, subimos lentamente, mas até isso era dificultado pela força da corrente, de tal forma que eu estava na horizontal, segura pelos 2 braços, e o meu corpo oscilava como uma bandeira ao vento. A garrafa de oxigénio batia com uma força nas minhas costas que até fiquei com nódoas negras. Lá nos safámos e cá em cima foi uma discussão terrível com o instrutor, que ao ver que não apanhava a corda não desceu e tinha voltado para o barco. Maus briefings iniciais…
Mas valeu a pena! Está no top dos meus mergulhos até agora, fiquei com o curso e também aprendi que há que ter sempre atenção, pois embora seja um desporto fácil tem regras que têm que ser seguidas, com riscos até de morte. E que o buddy pode fazer a diferença, como o fez noutra vez em Malta, mas ao contrário… mas isso fica para o próximo mergulho!

11/01/2005

Deep Trip 4 – Fernando Noronha, Brasil

Brasil… Tanto para dizer e tão poucas linhas. Quem lá vai fica viciado e dificilmente não repete a viagem. E os testemunhos repetem-se: a simpatia das gentes, as praias sem fim, a multiplicidade de paisagens, a cidade mais bonita do mundo, as caipirinhas…
Apesar da passagem do ano ser o motivo da viagem, resolvi fazer um 2 em 1 e com uma costa daquele tamanho, o que não faltariam seriam excelentes locais de mergulho, certo? Pois nem por isso! A costa é imensa, tropical, mas o mar é batido, ou seja, a visibilidade não é a melhor. Há inúmeros locais de mergulho, assim como escolas, mas isso não é sinónimo do melhor mergulho, mas sim de turismo. Se procurarmos muito bom mergulho mesmo, de não meter vergonha a ninguém e já de qualidade internacional, a resposta é só uma: Fernando Noronha.
Estamos a falar de uma pequena ilha atlântica, já bem afastada da costa, para a qual se vai de avião, de Natal (1h) ou de Recife (1h30m), onde há uma preocupação real na conservação do meio ambiente: o número de habitantes e de visitantes é controlado; tem que se pagar uma taxa progressiva de estadia na ilha para desencorajar grandes estadias e dar o prazer da visita a mais gente; há quota máxima de veículos motorizados; não se constroem grandes unidades hoteleiras, mas transformam-se as casas da ilha em pequenas pousadas, providenciando também rendimentos para as famílias residentes. Soa bem e parece melhor! A ilha é um pequeno paraíso, tem as consideradas mais belas praias do Brasil (a concorrência não é desprezível) e a não industrialização do turismo dá-nos uma sensação de privilégio reconhecido internacionalmente: Património Mundial Natural da Unesco.
Dentro de água não é diferente! A ilha, ou melhor, arquipélago, já que engloba uns ilhéus inabitados, divide o mar em 2: o mar de dentro, voltado para a costa e por isso mais calmo, e o mar de fora, mais agitado, normalmente só para mergulhadores mais experientes. Em ambos os mares a temperatura (28º) e visibilidade (30m) são boas e estão repletos de vida animal, com peixes mais pequenos e tropicais no mar de dentro e com cardumes gigantes de peixes mais graúdos no mar de fora. Querem tubarões e tartarugas? Também têm. O verdadeiro aquário! A ilha é conhecida por uma espécie de golfinhos endémicos que facilmente se avistam da costa, mas o mergulho com estes animais foi proibido, dado que se detectou que lhes causava stress (!). Um bom exemplo do nível de protecção ambiental!
Mas o que me faz lembrar de Fernando Noronha como um dos melhores mergulhos da minha vida foi um drift dive inesquecível! Drift dive é o termo utilizado por mergulhar a favor de uma corrente. Este tipo de mergulho pode ser feito numa corrente suave, onde, uma vez a flutuabilidade estabelecida, cruzam-se os braços e deixamo-nos ir suavemente, ou numa corrente mais forte, que nos projecta com uma velocidade alucinante e nos dispara adrenalina. E é destes últimos que estou a falar! Num canal que separa 2 ilhéus e que faz a comunicação entre o mar de dentro e o mar de fora, passa uma forte corrente de águas cristalinas. No briefing (antes de mergulhar há uma explicação do que vamos ver e fazer) foi explicado que iríamos começar pela costa de um dos ilhéus e depois sairíamos para o canal onde apanharíamos a corrente. Ok, vamos a isso. A minha memória dos 10m iniciais é de um mar azul-turquesa impressionante, de um tubarão lixa e de uma moreia, para além de muitos outros peixes. Depois vi o instrutor sair do abrigo das rochas e entrar no canal e ser imediatamente projectado a alta velocidade, até se agarrar a uma âncora gigante mesmo no meio do canal (cujo barco, algures no tempo, não deve ter resistido à força das águas). Todos o seguimos, cumprindo as instruções iniciais e fizemos uma corrente humana: segurámo-nos uns aos outros e era com esforço que nos mantínhamos agarrados, com os corpos a serem sacudidos e os braços em tensão. Passado um pouco, largámo-nos e fomos lançados pela corrente. A sensação foi alucinante! A de voar a alta velocidade. E depois aproveitar e dar voltas sobre mim própria, ir acima e abaixo (controlado, claro) e mais uma volta…. Só me lembro de pensar que devia ser a sensação de voar do super-homem! Uau! No fim, o barco vai-nos buscar onde já sabe que a corrente perde a força: sem esforço!
Aliás, toda a operação de mergulho é profissional e muito cómoda, começando logo pela manhã onde fazem uma volta pelas pousadas para apanhar os mergulhadores. Até nisso Fernando Noronha é um destino inesquecível, e a experiência de mergulhar em correntes foi a melhor, a contrastar com outra que tive no mar Andaman, na Tailândia….mas isso fica para o próximo mergulho!

2/24/2005

Deep Trip 3 – Portugal

Cansado do dia-a-dia rotineiro? Farto de sair do trabalho e ir para casa? Gostaria de fazer algo diferente? É fácil: tire um curso de mergulho, em poucas lições e em horário pós-laboral. A solução pareceu perfeita após uma busca sem esforço: um telefonema a alguém que conhece alguém que conhece alguém… Portugal!
Num mês a coisa fica feita: 2 vezes por semana, durante 3 semanas e, no fim, um fim-de-semana para mergulhar. E ficamos prontos para mergulhar em qualquer sitio do mundo! O curso é dividido em teórico e pratico: a teoria onde se tem que ver uns vídeos, ouvir a matéria e responder a questionários, a parte seca…literalmente; a contrastar com a parte molhada, na piscina para aplicar o que se aprendeu e divertir a chapinhar na água, o que é sempre bom depois de um dia de trabalho e teoria subaquática! No fim os exames, mais uma vez teórico e prático. Não é necessário ser um Einstein para responder ao típico questionário americano de 4 respostas, onde 2 são totalmente imbecis, 1 tem rasteira e só resta a certa. Quanto ao exame prático: 4 mergulhos no mar!! Sim, já à séria!
Sesimbra foi o destino. É o Atlântico Norte, a uma latitude muito pouco tropical, ou seja, água fria! 16ºC é o limite inferior aceitável para se mergulhar com um “wet suit” (fato não preparado para temperaturas frias), pelo menos para mim! Na água o panorama não era animador: o arrepio da água gelada a inundar progressivamente as partes secas do fato e o briefing do “vamo-nos manter bem juntos que a visibilidade não está muito boa”, não eram animadores. E, nesse dia, foram 2 mergulhos porque tinha de ser. Não se via a mais que 5 metros de distância, o suficiente para se fazer os exercícios da praxe, imaginar um mega-tubarão já em cima de nós sem darmos por isso, e sair o mais depressa possível da água para aquecer ao sol.
Acordar quase de madrugada, com o intuito de ir para dentro de um mar turvo e frio, parecia um pesadelo. E foi com este espírito que iniciei o 2ºdia. Mas, surpresa das surpresas, as condições tinham melhorado bastante, sobretudo a visibilidade, o que faz toda a diferença. OK, morre-se de frio mas ao menos vê-se o que se anda a fazer: 15m, o que para Portugal é bastante bom. O spot de mergulho era bastante engraçado: formações rochosas, arcos e grutas bastante interessantes, peixes engraçados e até um pequeno polvo que o instrutor me colocou na mão. Para não falar que depois dos exercícios feitos, houve tempo para dar uma volta descontraída. Ufa, não tive que sofrer, diverti-me bastante e, o mais importante…Passei no exame!
Com o cartão de mergulhador na mão, o entusiasmo foi mais que muito, qualquer oportunidade parecia boa para mergulhar, Portinho da Arrábida, Lagos, Albufeira. O resultado nunca diferia muito: água fria, visibilidade fraca/média, vida animal escassa. Mas valia por ser mais um mergulho, pela sensação e porque o curso dá-nos umas luzes, mas é na prática e com experiência que nos sentimos “como peixe na água”. Para não falar do vicio do Logbook, uma das manias dos mergulhadores: um livro onde se registam fanaticamente todos os mergulhos e suas características como o tempo de mergulho, profundidade máxima, temperatura da água, o que se vê… Como coleccionar cromos, mas com alguma utilidade: é com o número de mergulhos que nos avaliam para tirar mais cursos, ou fazer mergulhos mais fundos ou mais difíceis.
De tal maneira empenhada em mergulhar que ainda dei um pulo a S. Miguel, nos Açores, num fim de semana muito molhado: dentro e fora de água! Não parava de chover, o que não ajudou a luminosidade dentro de água, assim como o frio ao sair de água. Mas mesmo assim valeu a pena, um navio afundado a largo de Ponta Delgada, mais peixes e um fundo do mar vulcânico bastante interessante. A rivalizar com o cozido das furnas e as paisagens intensamente verdes e floridas até ao mar, no melhor da ilha .
Vale a pena tirar o curso inicial em Portugal, já que temos boas escolas, os preços são médios a nível internacional e os horários podem ser encaixados convenientemente na rotina diária e ainda servem como escape. Para além disso, não se perde tempo nas férias a estudar e é um desperdício andar no “tira a mascara, põe a mascara” em vez de andar no relax, a sobrevoar uns belos corais e perseguir peixes tropicais. Quanto a mergulhar por mergulhar… digamos que dá para treinar para o comum dos mortais que não pode passar a vida a viajar, mas a vontade de o fazer por cá torna-se inversamente proporcional à qualidade do mergulho que vamos conhecendo lá fora! E até em sítios onde já aprendemos a viajar com regularidade, como o Brasil. Mas isso fica para o próximo mergulho!

Deep Trip 2 – Seychelles

De férias com alguém que mergulha quando não se pratica o desporto é complicado. Especialmente porque ir ver quem mergulha não é bem o mesmo que assistir a uma partida de futebol: o mais excitante que se pode ver cá fora são as bolhinhas de ar a vir à superfície. Neste desporto ou se está in ou out…literalmente: dentro ou fora de água! Foi o que aconteceu nas Seychelles e se não os vencemos, juntamo-nos a eles.
Mergulhar é um desporto que exige uma certa preparação e responsabilidade, exigência materializada nos famosos cursos de mergulho, que dão direito a uns cartões de mergulhadores, dos quais passamos a orgulhar-nos desmesuradamente quando os conseguimos. Lembram-se da sensação carta de condução na mão pela 1ªvez? OK, é por aí! Não tendo ainda o curso de mergulho é possível fazer um teste “para ver se pega” com os chamados “Baptismo de Mergulho”. Não se fica a perceber nada, nem é suposto, só nos ensinam a não parar de respirar quando se está debaixo de água (o óbvio) e a confiar nos instrutores, que nos levam pela mão. Depois é abrir bem os olhos e deixar-nos ir.
Ter a 1º experiência de mergulho nas Seychelles, deve ser aproximado com o primeiro namorado ser o Brad Pitt. Melhor é possível…mas dificilmente! O cenário envolvente é de sonho: a mata tropical luxuriante, a areia branca de coral, o azul turquesa da água tranquila. Um certo nervosismo. Especialmente quando me explicaram que tinha de saltar para a água sentada na borda do barco e deixar-me cair para trás! Mas que raio, imaginei logo a cabeça a bater no barco e o suposto mergulho acabar no pronto a socorro. Não ajudou a relaxar…. Mas já não dava sequer para hesitar, fechei os olhos deixei-me cair e, depois de um pequeno atabalhoamento, constatei que o truque funcionava! Restabelecido o equilíbrio à superfície da água, com o coração a bombar acelarado, só pensava em ir lá para baixo.
A visibilidade era excelente e a água quente. Depois do obrigatório sinal com a mão para descer (mão fechada com polegar espetado para baixo), a instrutora tirou o ar do meu colete e conduziu-me paras as profundezas. Bem, profundezas… nos baptismos os mergulhos são pouco profundos (“rasos”), e não fui a mais que 12m. O primeiro instante de pânico a pensar que se vai morrer afogado porque se está a respirar debaixo de água, tem que ser superado pela parte racional do “há tanta gente a fazer isto e eu não consigo?”. E depois foi viver a experiência. Ver formações de rochas imponentes, que formavam canyons subaquáticos, corais de todas as cores e peixes coloridos tropicais. E não é só o que se vê que maravilha: é o silêncio dos barulhos do exterior, e, sobretudo, a sensação de ausência de gravidade. O pensamento que me surgia insistentemente era que nunca estaria mais próxima da sensação de voar. Levitava… Adorei! Fiquei eufórica. E repeti. Desta vez mais confiante e autónoma. Ainda mais alerta para as sensações e belezas submarinas. Voltei adorar. Só não o fiz mais vezes porque o mergulho nas Seychelles é caro e mais ainda os baptismos. Um exagero mesmo… mas valeu cada cêntimo!
O resto do tempo foi passado a ver a ilha Mahé, a maior do arquipélago das Seychelles. O ideal é alugar um carro e vaguear pelas montanhas, com vegetação e pássaros tropicais, tomar banho nas cachoeiras, dar uma volta na capital Victoria, visitar a parte norte mais turística para se dizer que lá se esteve, descobrir um restaurante perdido com um por do sol fabuloso e explorar as dezenas de enseadas de praias maravilhosas. O mais engraçado foi conhecer locais numa dessas praias, com um convite hospitaleiro de partilhar um pic-nic e trocar pontos de vistas tão distantes. Uma boa onda que levou ainda a uma saída nocturna com os novos amigos nativos, numa discoteca local. E a divertir toda a gente se entende! Uma experiência única, só possível para quem se aventura a sair da cómoda, mas previsível e monótona, piscina do hotel.
As Seychelles são um destino que preenche os sonhos tropicais, mas onde já é possível ter alguma vida fora dos resorts (pelo menos em Mahe). As férias ficaram marcadas pelo início da minha paixão submarina, que foi de certo ajudada pela envolvente idílica. Ficou a vontade de mergulhar mais, mas já de uma forma independente, ou seja, com um curso. E foi disso que tratei assim que cheguei a Portugal. Mas isso fica para o próximo mergulho!

Deep Trip 1 – Maldivas

Viajar era já um vicio quando apareceu o mergulho. E já várias vezes tinha aparecido a oportunidade de o fazer em forma de Try & Buy: experimente 1 vez e se gostar continua. Deveria ter desconfiado da confiança de quem faz estas promoções: normalmente há sempre retorno das ofertas, ou seja, a experiência é boa e fideliza!
As Maldivas foram o último baluarte da resistência ao mergulho. Passei uma semana, na típica paisagem maldivina da ilha de sonho tropical, com barbatanas calçada e de snorkell na boca e, mesmo assim, não cedi à tentação. Por desconhecimento, mais do que por receio. Um conselho: não perder tempo a pensar. Fazer e depois logo se vê!
Mas mesmo só em snorkelling o mar das Maldivas recomenda-se: a 3 braçadas da praia passava-se a barreira de recife que circundava a pequena ilha, e ficávamos no mar aberto, onde uma parede de coral descia vertiginosamente para o grande azul. O fundo imperceptível, apesar da excelente visibilidade. Reef sharks de 1 metro, milhares de peixes tropicais coloridos e bonitos corais. Horas de molho, até se ficar com hipotermia numa água de 28ºC.
Tudo corria bem até o inesperado acontecer… Na enésima hora de snorkelling, avistei um conjunto de manchas brancas que pareciam um cardume de pequenos peixes. O alerta veio quando, a ladear o suposto cardume, vinham uns peixes esguios, que conhecia mais das aulas de biologia do que do meu, então parco, conhecimento de peixes: remoras, as famosas criaturas que vivem em comunhão natural com tubarões… TUBARÔES???!!! Oops! Fez-se luz, e à medida que as manchas se aproximavam tomavam a forma de um gigante submarino, mesmo por baixo de mim. Ou melhor, um monstro enorme de boca aberta, desconhecido, num ambiente que não é o meu natural… Pânico!! Vim cá acima, respirar um bom bocado de ar e perguntar o que era aquilo e, sobretudo, se mordia! Perto estava uma instrutora de mergulho que só gritava “Whale-shark” (tubarão-baleia), completamente alucinada de felicidade e que me descansou sobre o eventual perigo. Relaxei (ela parecia perceber do que falava) e segui-o até perder o fôlego.
Vim a saber depois que era um tubarão-baleia bebé, apesar dos seus 5m, e que quando crescesse poderia passar dos 15m. Um animal do mais pacifico possível, que se alimenta de plâncton (daí a enorme boca aberta) e que muito há ainda por descobrir sobre estes animais, viajantes solitários de oceanos. Soube também que a probabilidade de ver um é remota: a instrutora estava na ilha há 1 ano e meio, mergulhava e fazia snorkelling todos os dias e este era o primeiro tubarão-baleia que tinha visto.
A experiência marcou sem dúvida a estadia na ilha. Não porque a parte seca tenha sido má, antes pelo contrário. Aliás, até correu lindamente, já que tinha feito o trabalho de casa e recolhido as experiências alheias antes de escolher a ilha. E há critérios fundamentais para tal. O regime de estadia. A escolha feliz recaiu sobre um all inclusive: uma ilha equivale a um resort, ou seja, estamos sempre a pagar tudo a preço de resort…de luxo. Para não melhorar, os preços são de um país que além de exporta tudo fica no meio do oceano Indico e, com tanto calor, é melhor não pensar nos muitos euros gastos em cada garrafa de água. Depois o dilema do tipo de habitação: waterbungallow vs o normal, uma dor de cabeça…. As actividades incluídas: mergulho, catamaran, surf, kayak, windsurf, aulas de ginástica e dança, e afins. Para não falar das nacionalidades que pode ser um critério de escolha: com ou sem portugueses, e depois o cardápio de nacionalidades que mais viajam…. À escolha e para todos os gostos.
Depois de escolhido o resort, atenção à companhia, é que as Maldivas estão feitas para apaixonados (OK, alguém envolvido sentimentalmente com quem não se discuta, já não é mau…): não se conhece muita gente, a não ser casais que normalmente não estão ali para conhecer ninguém, e não há animação nocturna, apenas as organizadas pelos resorts, algumas de gosto duvidoso e que nunca passam da meia-noite. E em muitas ilhas não há sequer uma TV!
Garantindo a parte da companhia, o resort maravilha e juntando as actividades de eleição, das desportivas ao simples torrar ao sol com um bom livro na mão, temos aqui as férias de sonho. Sem qualquer esforço, a indulgência impera, mais do que outras ilhas com o mesmo rótulo de paraíso, como as Seychelles. Que ficam para o próximo mergulho!